Para comemorar a estréia do blog, vou falar do OUYA, console recém adquirido com muito custo. Bem, o “custo” em si nem foi tão alto assim, mas foi bem difícil encontrar um para venda, já que estava esgotado na maioria das lojas dos EUA e eu não tinha mais que uma semana para ficar batendo perna por lá durante a minha estadia.

Foi duro achar um para comprar mesmo nas grandes lojas, e ele saiu pelos US$ 99.00 que deveria custar. Entretanto, posso dizer sem medo algum que ele já justificou mais do que bem o preço.

Não vou passar tempo nenhum falando da história dele, o que ele é, o que faz, etc, afinal, você pode conseguir estas informações no Google. Vou deixar registradas aqui as minhas experiências (em mais de um post, pode ter certeza) sobre o bichinho, já que é a informação que pode interessar.

Bom, antes de mais nada, vamos começar a listar alguns fatos sobre o aparelho:

1) Fator Expectativa: Meio mundo reclamou da frustração de ter obtido um OUYA. Sinceramente, eu não consigo entender o por quê. Tirando o fato de ter sido um projeto que nasceu por crowdfunding e baseado em hardware de celular com preço final de US$ 99.00, não sei de onde as pessoas tiraram que ele iria fazer milagre. Minha recomendação para evitar tal frustração é: cada vez que você se pegar pensando “é só isso?”, não tente comparar a performance dele com a do seu videogame atual ou do seu computador, mas sim a do seu celular. Em caso de desespero, repita várias vezes: “É um celular! É um celular! É um celular!”. Sim, três vezes, para ter certeza! :P

 

2) Jogos (o que interessa): Como todo console que surgiu do nada, é óbvio, o OUYA ainda tem uma biblioteca bem esquisitinha. Boa parte dos títulos que estão na loja oficial mais parecem aqueles jogos toscos de Linux, aqueles que você não faria seu pior inimigo jogar. Os preços obedecem mais ou menos o padrão dos jogos de Android, variando entre US$ 0.99 e US$ 14.99, dependendo do quão grande ou bem-acabado ele for. Apesar de ser um verdadeiro mar de porcarias, a loja reserva algumas boas surpresas, inclusive algumas conversões de jogos que saíram para os consoles atuais e para os dispositivos iOS e Android.

 Dentre os jogos que prestam, cito:

Towerfall: Uma mistura de Warroid (de MSX) com Super Mario Wars (fangame não oficial para o Xbox) muito bonito e divertido. Perfeito para jogar tomando cerveja com os amigos. Tudo feito com cara de retrogaming, muito bem acabado nos mínimos detalhes e com suporte a 4 jogadores simultâneos. É o jogo mais caro que eu vi até agora (US$ 14.99), mas valeu a compra.

Flashout 3D: Um clone de Wipeout (Playstation), bem bonito, mas ainda falta alguma coisa. O jogo é rápido, o framerate é constante, mas eu não consegui me entender direito com os controles e tive a sensação de que as armas não funcionam como deveriam.

Syder Arcade: Parece o clássico Defender (Atari/Arcade), só que feito para Amiga, e com opções de escolher naves, armas extras, sem ter que salvar ninguém e só meter bala em todo mundo. Destaque para as opções de vídeo dele, que permite rodar o jogo com emulação de vídeo de micros clássicos (Amiga, MSX2, ZX Spectrum, monitor verde, etc). Um euroshmup de classe, divertido, bonito, com música excelente e que vale horas de diversão.

Raiden Legacy: Se você acha que a série Raiden (que saiu para praticamente todas as gerações desde seu lançamento) não ia dar as caras no Ouya, está enganado: Raiden Legacy é um port (via emulação?) oficial do fabricante, que por sua vez conta com os mesmos jogos do pacote Raiden Fighters Aces, de Xbox 360 (ou seja, o Raiden original de Arcade, Raiden Fighters 1, 2 e Jet). Por uma mixaria, até que não está nada mal…

3) Não tem Google Play: É, isso mesmo. Sem Google Play neste carinha aqui. A ideia do Ouya, pelo que eu percebi, é criar uma nova plataforma de fornecimento de jogos do zero, sem contar diretamente com a infraestrutura já instalada do Android. Ou seja, se você espera jogar Angry Birds ou Cut the Rope, esqueça. Eles não existem na loja oficial.

 

4) Console pronto para hackers… pero no mucho: A propaganda original do Ouya no Kickstarter era algo como “este aqui vocês, hackers, podem futucar à vontade”. Para minha surpresa, ele não vem nem um pouco “escancarado” de fábrica. Não vem rooteado, não tem muita abertura para instalação de software não-aprovado pelo fabricante (o que não quer dizer que seja impossível de fazer, mais detalhes em breve), ou seja: na boa, eu não entendi a pegadinha! Não era para ser um console aberto? Francamente…

 

5) Emuladores (o que realmente interessa): Esta parte é sem dúvida uma das mais bacanas do aparelho. O fabricante (que se mostrou não tão liberal quanto o prometido na propaganda) distribui emuladores oficialmente no site, otimizados para Ouya, com suporte total ao aparelho, o que é muito bacana. Testei praticamente todos e pude confirmar que se a proposta é emulação, você está muito bem-servido. Tirando os hardwares mais modernos (Playstation 2, Saturn, Dreamcast), todo o resto roda muito bem. Senti falta de um port oficial do Mame e do Final Burn para ele, mas tem o RetroArch, que é um emulador que roda as duas plataformas (com um mínimo de recursos), e já quebra um bom galho.

6) Controle quase bom: O controle do Ouya tem diversos pontos positivos e negativos. Para começar, ele tem um trackpad na parte superior (feito o controle do PS4) e não parece nada ordinário, pelo menos até que você abra a tampa das pilhas, revelando uma estrutura de plástico feiosa que mais parece a de um joypad chinês genérico. Funciona com pilhas comuns AA, que duram um bocado. Funciona por bluetooth, bem parecido com o do Xbox 360, e a ergonomia é bem boa. Porém, o grande problema dele é o maldito lag que o Android tem quando você está usando um controle sem fio. O lag não é algo pequeno, não é algo ignorável, chegando a atrapalhar um bocado em vários momentos, além de ser variável (vai de 1 a 4 décimos de segundo, dependendo do instante). Alguns jogos tem mais lag, outros menos, o que explica que o problema pode ser na implementação do bluetooth. Se não melhorarem isto, você vai acabar fazendo como eu, que pluguei meu joystick USB nele depois de perder a paciência.

 

7) D-Pad dos infernos: Tem uma coisa que o D-Pad do controle não faz direito, que são diagonais. Ao menos em muitos dos emuladores, como o de Neo Geo e CPS2, nos jogos de luta, é muito difícil fazer os comandos de “meia-lua”. Com um controle (geralmente USB) adequado isso some, e com o joystick de PS3, que é bluetooth também não há problemas. Ou seja, não é culpa do bluetooth aqui.

 

8) Poucas portas: As portas, todas traseiras, do Ouya são:

– 1x USB 2.0 não-energizada

– 1x Micro USB (padrão do Android)

– 1x HDMI

– 1x Ethernet

 

E só. Não tem entrada para cartão SD, nem outra USB, nem nada. A USB, ainda por sua vez, tem umas frescuras medonhas, como por exemplo: Ao colocar um pendrive na USB com o Ouya ligado, ele simplesmente não será reconhecido. Você precisa desligar o aparelho, colocar o pendrive e só então ligar. Além disso, se você está acostumado com Linux, não adianta procurar o pendrive no /mnt porque não vai aparecer nada lá. No diretório raiz, suba o máximo que puder e procure por /usbdrive, e bingo! Demorei um século para descobrir isso, achei até que a USB estava queimada. Outra coisa é não tentar usar EXT3 ou EXT4. Os meus leram perfeitamente em FAT32 e NTFS, mas nada dos EXT. Não testei com hub USB ainda, mas logo mais testarei.

 

9) Acessando a memória interna: Lembra que o Ouya é um celular? Pois é. Quer acessar o armazenamento interno dele? Sabe como fazer? É igualzinho a acessar seu celular! Espete seu Ouya no micro USB, espete o cabo no computador, e era isso. A memória dele é de 8 Gb, que deve ser um cartãozinho SD que fica dentro do gabinete, assim como o de 2 Gb do NeoGeo X. Se for mesmo, vou trocá-lo em breve.

 

10) Rede meio burrinha: A placa de rede sem fio do Ouya e a com fio brigam um bocado e não são muito espertinhas. Quando você está no Wi-Fi e quer ir para a ethernet, plugar o cabo de rede é ok, mas não o contrário. Uma vez plugado, ao ser removido o cabo de rede, o Ouya continua procurando a conexão na Ethernet. Para fazê-lo voltar é preciso reiniciar o console (desligar mesmo, deixando sem energia por uns 10 segundos).

 

11) Atualizações: Neste ponto eles estão muito bem. Estou brincando com o aparelho há cerca de uma semana e já atualizaram o firmware três vezes, além de terem melhorado muito o layout da loja. Achei muito boa a velocidade de download das atualizações (dá de dez a zero na PSN).

12) Apps (sim, tem alguns): Nem só de jogos vive a loja. Tem alguns aplicativos lá. Uns muito bacanas, já outros nem tanto. Gostei muito do EmuYa, que é um emulador de NES com rádio de chiptune music, venda de roms hackeadas e homebrews e opções de cheats diversas para jogos comprados através dele ou não. Dá para dar slowdown na rom de Double Dragon 2 original, ou colocar vidas infinitas no Salamander original, ou jogar o Blade Buster, que é um homebrew muito bacana e outros jogos. Tem um gerenciador de arquivos bem decente, um navegador nativo (que eu descobri ser um Safari mexido), VLC para filmes, mas nenhum XBMC. Pô, Ouya, como assim não tem XBMC? Eu até pagaria por ele… (Update: Sim, já tem Netflix e XBMC para Ouya! O Netflix para tablets roda quase perfeito nele, o XBMC tem uma versão decente que funciona perfeitamente)

 

13) Sideloading (ou, tornando aberto o console que deveria já ser de fábrica): É claro que tem como rodar coisas não oficiais no Ouya, mas a experiência é frustrante na maioria das vezes, ao menos até agora. Para carregar software de Android nele, é preciso colocar os APKs no pendrive ou em um drive virtual (Dropbox, Box, Google Drive) e acessar pelo navegador. Eles são baixados e armazenados no diretório /downloads da raiz principal. O sistema permite a instalação sem grandes problemas, mas rodar já é outra história. A Google Play, por exemplo, simplesmente não abre. A maioria dos softwares rodam até certo ponto, acham que estão em um tablet (por causa do jellybean) e depois capotam. O mesmo ocorreu com Angry Birds, Asphalt, Ikaruga e todos os outros jogos de Android puro que eu testei. O Dosbox não rodou também, mas o Mame4All funciona perfeitamente. Ou seja, nem tudo está perdido!

 

14) Jogando de graça: Uma das coisas interessantes dos jogos do Ouya é que todos, sem exceção, permitem que você jogue um bocado sem ter que pagar nada. Não é uma “demo” apenas, é o jogo mesmo, mas com certas limitações. Esta é a política do console e, sinceramente, eu gostei muito. Não tem “surpresas” para quem pretende adquirir os jogos.

 

15) Retrogaming em foco: Pelo que eu vi na biblioteca de jogos, e eu não devo estar enganado, existe um foco especial em retrogaming. Não quer dizer que você não vá jogar seu Shadowgun ou seu FPS favorito e desfrutar de todo o potencial do aparelho, mas existem muitos, mas muitos mesmo, ports de jogos com forte influência dos anos 80 e 90, principalmente de NES, Atari e Amiga. Justificarei este ponto em breve, com posts específicos. Uma outra ideia, para quem gosta de jogar com o hardware original, é utilizar versões USB dos joysticks clássicos nos emuladores. Existem versões USB de praticamente todos os sistemas (NES, Atari, Mega Drive, SNES, PSX, N64, etc) que são baratos e fáceis de encontrar. Para melhorar a experiência de emulação, um joystick USB específico ajuda não só a eliminar o lag, como as imperfeições do direcional e fornece uma experiência mais autêntica do jogo. Testei com um hub USB chinês, 1.0 super vagabundo, e o Ouya encontra, ao mesmo tempo, os controles e os pendrives, ou seja, perfect!

16) Ports dos Atuais: Alguns jogos já tem ports oficiais para o Ouya, como é o caso do Sine Mora. O jogo ficou idêntico ao do Xbox 360 / PS3, nos mínimos detalhes. O controle funciona sem lag aqui, o que só comprova que o problema do bluetooth é na implementação porca nativa.

Publicado originalmente no blog Arcade Rat.

 

Testamos o OUYA, novo console baseado em Android! [Análise]

Sobre o autor
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Ex-advogado, empresário e DJ nas horas vagas, não quer saber se o próximo Playstation vai ser melhor que o Xbox ou não, afinal, nenhum dos dois roda MAME. Fã convicto de shmups, tem um blog sobre o assunto (www.shmupsbr.blogspot.com) e ainda não entendeu porque não sai um Gradius há tanto tempo. Coleciona alguns aparelhos antigos, muitos novos, mantendo um (difícil) equilíbrio entre os clássicos e as novidades, principalmente indie games, jogos de luta, ação, corrida, tablets, celulares… mas de esportes não, né? Cogitando há anos fazer seu próprio shmup, mas descobriu que manter uma equipe de desenvolvimento é algo muito mais difícil do que descongelar lasanhas…