Precisamos falar sobre o novo Mega Drive

Como todo mundo já deve saber, a Tectoy está com um “remake” do Mega Drive para ser lançado. O novo velho console tem slot de cartucho, virá com um controle de 3 botões e um slot para cartões SD, onde o usuário poderá colocar seus jogos e usar os 22 que já vêm incluídos no aparelho. Nada disso, porém, é novidade para nós, mas colocar as mãos no aparelho foi uma grata e satisfatória surpresa!

O monstrinho estava lá!

O acabamento

É tranquilo dizer que o Mega Drive é feito com qualidade. Tanto o console quanto o controle não parecem de plástico vagabundo, têm peso ideal e textura praticamente igual à do aparelho velho. Mas lembrando que faz quase 30 anos que não colocamos as mãos em um Mega Drive novo, então algumas coisas a gente se esquece de como eram.

Um exemplo disso é o slot de cartucho, testei um cartucho nele e funcionou de primeira, nada de ficar tirando e colocando 20 vezes para fazê-lo rodar. Os botões do console também estavam “durinhos”, o que mostrava, óbvio, que o aparelho era novo.

O novo Mega Drive, com o cartucho protótipo. Encaixei e ele funcionou, não teve mau contato, nada!

O cabo A/V stereo é daquele mais simples possível, nada de cabo proprietário DIMM ou coisa do gênero que a Sega sempre gostou, RCA nas duas pontas e estará funcionando. E sim, esse Mega Drive é stereo. Talvez alguns não saibam, mas não existe Mega Drive 1 stereo de fábrica, ele solta áudio mono pelo encaixe traseiro, mas stereo pelo encaixe do fone, então muita gente fazia modificações para ter som stereo nele, mas de modo nativo, o primeiro modelo nunca teve. Ponto pra Tectoy!

Os cabos A/V bonitinhos, atrás dele. Ótima ideia não usar conector especial.

HDMI ou não HDMI, eis a questão

Uma das coisas mais criticadas nesse aparelho, se não a mais criticada, é o fato de ele não ter HDMI. Pior, a justificativa oficial da Tectoy de que “todas as TVs no Brasil têm A/V” acabou sendo mal interpretada, inclusive por mim. O que nós entendemos foi “o Brasil é país pobre e ninguém tem TV com HDMI”, mas o que eles disseram foi “gente, pra que? só plugar no A/V que vai de boa!”.

E na entrevista de ontem acabou ficando claro o porquê de eu falar isso. A explicação, que me convenceu bastante, foi mais ou menos a seguinte: “O sinal de vídeo é analógico, com a resolução nativa de 320*240, se colocássemos HDMI, teríamos que converter o sinal de analógico para digital, sem tratamento algum. Isso iria encarecer o projeto e não trazer vantagem alguma ao jogador. Agora, se fizéssemos com upscaling, direitinho, convertendo o sinal e arrumando a resolução, não daria tempo de ter o console lançado tão já, além de encarecer bastante o produto”.

O menu de seleção de jogos, muito bonitinho, rápido e intuitivo! E a imagem poderia ser pior.

Pra mim o que ficou claro foi: “podemos colocar, mas não vai melhorar a imagem e só vai encarecer.”. Vendo por esse ponto de vista, não dá pra tirar a razão deles. Além do que, toda TV tem A/V, a verdade é essa. HDMI no console só faria ele ficar mais caro com a imagem ruim, ou com a imagem “boa” e ficar pronto no ano que vem.

Eu achei bastante sábia a decisão deles em não colocar HDMI no console, e eu fui dos que mais critiquei quando fiquei sabendo da ausência da porta nele.

 

O som, é ou não é bom?

A própria Tectoy já disse que eles estão com problemas para fazer o som ficar fiel ao do Mega Drive antigo, e a explicação, pasmem, também convenceu. Em princípio nós, pessimistas, achamos que eles fariam um FPGAzinho vadio com aquela “emulação” tosca dos megas chineses que temos por aí no mercado. Mas não, não foi isso que eles fizeram, o projeto é deles, a placa foi desenhada do zero, com trilhas e chips bonitinhos, da maneira correta como deveria ser.

Só que isso causa um problema razoável para a engenharia deles, já que muitos componentes não existem mais. O Yamaha YM2612, responsável por parte do som do Mega, não é mais fabricado e a Yamaha não tem mais o projeto dele. Acreditem, isso acontece MUITO nesse ramo. O mesmo vale para o Z80 que, embora seja fabricado ainda, é feito com clocks muito mais altos e arquitetura mais avançada, não deve servir. Então eles fizeram o que, na minha opinião é, um trabalho ninja para fazer o console rodar os jogos com o som legal. E, naturalmente, não conseguiram em todos os casos. Mas respeito demais o trabalho deles, o que eu sei de hardware me diz que não foi um trabalho simples, nem tampouco coisa de gente que não conhece com o que está mexendo…

O barrigudinho marcou presença no evento também!

Então pra simplificar: o som é legal em alguns jogos, mas em outros será apenas razoável. Talvez corrijam isso no futuro, a ideia deles é arrumar, mas não sei se será possível.

 

Acessórios? Posso rodar meu 32X nele?

A resposta para essa pergunta é um sonoro NÃO. E os motivos são os mesmos que eu expliquei acima, pôxa, tentem pensar no trabalho que deu fazer os jogos de Mega funcionarem. Adicione 32X, Sega-CD ou adaptador de Master System e é certeza que é tecnicamente inviável deixar tudo funcionando. Uma pena, mas compreensível, visto que a proposta do console é a de rodar jogos de Mega Drive. E isso ele faz bem.

30 anos de parceria, não consigo pensar em uma relação tão duradoura nesse ramo.

A sensação de que o console está em boas mãos…

Eu conversei bastante com a equipe técnica da Tectoy, e os caras conhecem o que estão fazendo. Eu estava com uma antena de Master System Super Compact dentro da minha mochila (não perguntem!), e um deles a reconheceu só de olhar. Não é todo mundo que faz isso, podem acreditar. Acabei ouvindo vários “causos” de quem está nesse mercado há 30 anos, é sempre um prazer conversar com gente que entende muito mais do que eu de um assunto que eu adoro.

Parte da equipe da Tectoy. Foram muito prestativos e contaram várias histórias legais!

E acabou ficando essa sensação, a de que a equipe está empenhada, conhece o aparelho, sabe o que está fazendo e é detalhista ao ponto de tentar corrigir os erros que possam aparecer. Em suma: o aparelho não poderia estar em mãos melhores!

 

Agora vamos ao que interessa: os jogos.

Como é sabido, ele vem com 22 jogos no cartão de memória, e aqui está a lista deles:

  • Alex Kidd in the Enchanted Castle;
  • Alien Storm;
  • Altered Beast;
  • Arrow Flash;
  • Bonanza Brothers;
  • Columns;
  • Columns III;
  • Comix Zone;
  • Crystal’s Pony Tale;
  • E-Swat – City Under Siege;
  • Fatal Labyrinth;
  • Flicky;
  • Gain Ground;
  • Golden Axe;
  • Golden Axe III;
  • Jewel Master;
  • Kid Chameleon;
  • Last Battle;
  • Shadow Dancer;
  • Shinobi III;
  • Sonic 3;
  • World Championship Soccer.

Comix Zone e Sonic 3, rodando para o povo jogar.

Uma lista de bons jogos, com algumas bizarrices e várias curiosidades. Por que Golden Axe III (que é um jogo horroroso!) ao invés do II?! Por que só Sonic 3?! Crystal’s Pony Tale?! Pra que dois Columns? Mesmo assim é uma seleção de responsabilidade, bons jogos foram colocados aí, alguns desconhecidos da galera em geral e que são muito bons, outros que são “figurinha repetida” em toda coleção. Eu tenho certeza absoluta que essa seleção irá divertir quem comprar esse novo console!

 

A surpresa da noite: o anúncio de um jogo em cartucho!

Sim, pois é. Essa foi uma pergunta que sempre foi feita pra Tectoy, desde o anúncio do videogame: teremos cartuchos novos? A resposta é “tipo sim”. Pelo menos por enquanto, teremos um cartucho relançado para o aparelho: Turma da Mônica na Terra dos Monstros. Após negociações com o estúdio Maurício de Souza, a Westone (que faz o Wonder Boy in Monster World) e com a Sega, foi possível fazer esse cartucho. O preço e a data de lançamento não foram anunciados, infelizmente. Porém o protótipo dele estava lá, jogável.

Ele estava lá, funcionando.

Outros jogos podem vir, mas tudo depende de licenciamento. E licenciar coisas de 20 / 30 anos é um trabalho hercúleo. Mas eu confio que eles irão ao menos tentar. Tentaram, por exemplo, com Ayrton Senna’s Super Monaco GP2, e até conseguiram que a família Senna liberasse a imagem dele, mas esbarraram em inúmeros empecilhos, o nome Mônaco, o licenciamento das pistas, a FOCA não existe mais, os pilotos, enfim, o pesadelo de qualquer negociador de licenças. Aí acabou não acontecendo. Mas não é porque esse não aconteceu que outros não irão. Só que eles não prometeram nada.

 

Algumas coisas a considerar sobre o aparelho

Ele terá trava de região, como é o Mega Drive original. O slot de cartuchos dele tem um corte que o original não tinha, e prestando atenção, percebi que é possível colocar jogos asiáticos nele, quem se lembra do Mega Drive 1 sabe que tínhamos que “limar” um pouco o slot de cartuchos para poder encaixar fisicamente o jogo. Hoje ele será encaixado direitinho, mas a trava de região original da Sega o impedirá de rodar. Uma pena, mas é assim que funciona.

Quando vi esse slot pensei “oba, vai rodar qualquer região!”. Mas não vai, me confirmaram que não vai.

Sobre a compatibilidade, eles me deram uma informação muito bacana, e que eu acho que não foi falada pro público em geral: o console terá firmware atualizável, eles disponibilizarão um arquivo, o usuário salva esse arquivo no cartão SD e roda o update no Mega. Ótima ideia, e abre possibilidades de melhorias diversas no aparelho.

Existe a possibilidade de lançarem o controle de 6 botões oficialmente, embora não tenham prometido nada, estão tentando fazê-lo. Os controles originais antigos funcionam normalmente, e existem vários para venda em diversos locais, mas comprar um controle novo de 6 botões por um preço acessível seria bem bacana. O de 3 botões custa R$49,00, um ótimo preço. Se o de 6 custar R$20,00 a mais, será um negócio fantástico.

Eu levei meu Mega Drive Mini para mostrar pra eles, um hub USB em formato de Mega Drive com um raspberry pi dentro, e ele fez bastante sucesso lá. Quem sabe não rola uma vontade de fazerem mini consoles?

Famicom Mini e Mega Mini, lado a lado. O Mega agradou bastante!

Enfim, que venha o novo Mega Drive, que não seja o último projeto desse tipo deles e que esse faça bastante sucesso!

Um abraço especial ao povo da Rosa Arrais Comunicações, que organizou a festa e sempre nos tratam bem. E outro ao pessoal da Tectoy, por conversarem tanto comigo sobre diversos assuntos!

Precisamos falar sobre o novo Mega Drive

Sobre o autor
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Retrogamer, ranzinza, chato e que tem um celular velho (xperia play) só porque esse celular permite que ele jogue emuladores com controles físicos. Curte velharias mas não deixa de jogar coisas novas. Nascido em 1980 e formado em matemática, joga desde que se lembra de existir, quando o pai comprou um CP-400, depois TK-90X, depois MSX e, por último, Amiga 500. Jogava em todos eles, além dos videogames que teve na época. É do tipo doente que dorme ouvindo música de jogo em rádios no tunein.