Às vezes os jogos indie nos proporcionam gratas surpresas. Foi o exemplo de “Braid”, “Limbo”, “VVVVVV”, “Super Meatboy” e tantos outros do Ouya que nunca vimos / jogamos. Normalmente se dá atenção a um jogo pela “grife”, orçamentos milionários ou gráficos rebuscados.

Não é o caso de “Hotline Miami”, um indie game desenvolvido pra PC / Mac / PS3 e PSVita e que foi “dado” esse mês aos assinantes da PSN Plus. “Hotline quem?!”, você pergunta? É uma pergunta pertinente, já que o jogo não é muito conhecido pelo grande público. Mas ele causou furor nos que avaliam indie games. O motivo? Ele é simplesmente genial, em todos os aspectos.

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Violência em Miami

“Hotline Miami” até parece um roteiro de filme do David Lynch, já que mistura ultraviolência pixelada, LSD, trilha sonora excelente e diversão em doses cavalares, se passa na década de 80. Você é um criminoso / doido que recebe mensagens em sua secretária eletrônica.

Essas mensagens normalmente falam “venha me buscar no local ‘X’, vista algo bonito” ou “encheu de água um andar do prédio ‘y’, ajude a limpar”. Todos esses termos são eufemismos para você entrar no local e descer a mão em tudo e todos que se mexem. Você é o verdadeiro matador profissional: é entrar, matar, matar, matar e sair.

Entretanto, não pense que isso faz do jogo uma tarefa fácil ou monótona, pelo contrário: em “Hotline Miami”, você mata muito, mas também morre muito. A violência do jogo é extremamente caricata e exacerbada. Sangue escorre pelo chão, cérebros e vísceras saem do corpo ao levar um tiro ou paulada.

Um dos “ground attacks” (“Fatalities”, pelamordedeus!) consiste em você usar uma furadeira na cabeça do inimigo caído. Espadas cortam inimigos ao meio, decepam braços e tiros de espingarda arrancam pernas. Não é um jogo para crianças: não pense que porque ele é pixelado e bonitinho, que seu filho de 6 anos pode jogá-lo tranquilamente. Ele não pode. Ele não deve. Você, como bom pai, não deve sequer pensar nisso.

hotline-miami-2 Um dos méritos de design do jogo é um que, se você não prestar muita atenção, provavelmente passará em branco: caso você morra, aperte X e instantaneamente você estará de volta ao começo da fase. Nada de “now loading”, nada de travadinha pra fingir que não está fazendo nada, mas na verdade está carregando.

Morra, aperte X e pronto, você está de volta ao começo da fase. Isso é extremamente útil, especialmente porque você vai morrer incontáveis vezes durante a fase. E quando eu falo incontáveis, eu me refiro a INCONTÁVEIS mesmo – é de fazer passar nervoso. E sim, você vai morrer, e morrer, e morrer, e gritar feito uma criancinha, como você fazia nos tempos do Atari / NES.

Mecânica simples, mas funcional

A mecânica do jogo lembra a de um “Gauntlet” moderno (veja foto abaixo), com apenas um personagem e menos inimigos. Mas não pense que, por ter menos inimigos, você pode ficar vacilando no meio da fase. Eles atiram e raramente erram.

Se você ouvir um tiro, pode crer que você vai morrer. As armas são as mais variadas, entre canos, pés-de-cabra, garrafas, tesouras, tacos de baseball, facas, metralhadoras, tijolos, espadas, machetes e, claro, suas próprias mãos. Eu adoro usar a frigideira quente para jogar água na cara dos bandidos.

gauntlet

Os inimigos são bem pouco variados, é o ‘carinha’ de branco, o garçom (que só aparece em uma fase), o homem de terno preto e rosa e os cachorros. Ah, e eventualmente um chefe de fase, eu consigo me lembrar de dois. Contrariando o que é dito em “Cidade de Deus”, todos eles têm uma excelente mira (que, no começo, é muito melhor do que a sua, diga-se de passagem).

A jogabilidade é simples e você só precisa de direcionais, O, X, L e R, no caso das versões do PSVita / PS3. Um direcional anda, o outro mira, botão O pega armas do chão, X executa inimigos caídos ou agarra os em pé, R atira / soca e L atira a arma que está na sua mão.

A versão do Vita tem uma facilidade que a do PS3 não tem: você pode “marcar” inimigos com a tela de toque, facilitando a sua vida na hora de atirar, mas é um recurso que tem que ser usado com calma e tempo, coisa que raramente temos no jogo.

No controle do PS3 também temos essa facilidade, mas ela também não ajuda muito e isso podia ser melhor implementado. Em várias ocasiões eu marquei o inimigo errado e morri de bobeira, principalmente pros malditos cachorros.

A música é um capítulo à parte. Há muito tempo eu não jogava algo com música tão boa, acho que o último que eu joguei com música excelente assim tinha sido o “VVVVVV”. Recomendo fortemente o uso de fones de ouvido, a fim de aproveitar melhor as excelentes músicas, mas aviso que, se você não curtir chiptune, dificilmente irá gostar do som.

Algumas dicas:

– Toda vez que você terminar uma fase, não vá direto para o carro. Perca um ou dois minutos procurando a letra secreta da fase. Todas as fases têm uma e você precisa delas se quiser terminar com o final verdadeiro do jogo.

– Procure em tudo, tudo mesmo, às vezes até fora do cenário, tem uma máscara que está num bueiro na parte externa.

– Cada máscara que o personagem usa imita um animal, e cada uma te dá habilidades específicas. Uma faz com que seus socos matem os inimigos de primeira (a preferida aqui), outra faz você andar mais rápido, outra faz com que você aguente dois tiros, e por aí vai.

– Achar as máscaras não é fácil e você não “ganha” elas automaticamente. É preciso procurar bem nas fases e, às vezes, ganhar  pontuação alta. A utilidade delas é óbvia: Colaborar no replayability do jogo. Exemplo: Achar as letrinhas do puzzle, que também não é mole, sem usar a máscara da coruja, é praticamente impossível, e você só vai fazer isso quando estiver jogando o jogo todo de novo.

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Ficha Técnica:
Hotline Miami
Plataformas: PC, Mac, Playstation 3, PS Vita
Desenvolvedor: Dennaton Games
Distribuidor: Devolver Digital

[/pullquote]Para os que gostam do metajogo das platinas, a platina dele é encardida mas não impossível. Talvez faça com que você tenha que repetir a mesma fase algumas vezes, para pegar A+ em todas, mas tirando isso, é perfeitamente “platinável”.

Nota: 10/10

[ “Hotline Miami” tem uma história nonsense demais, gráficos toscos mas que cumprem o papel, uma fantástica ambientação nos anos 80  (se você prestar atenção aos screenshots, você consegue perceber o ruído de imagem, comum nos antigos VHSs e colocado no jogo de propósito), uma trilha sonora genial, jogabilidade excelente e uma dificuldade que te deixará com vontade de quebrar o controle, ou pior, o Vita. Uma das melhores experiências que eu tive em 2013, e olha que esse ano eu joguei muita coisa boa. ]

Agradeço ao Luis Filipe por alguns pitacos dados no texto. :)

Hotline Miami: Violento ‘indie’ tem mecânica genial [Análise]

Sobre o autor
- Retrogamer, ranzinza, chato e que tem um celular velho (xperia play) só porque esse celular permite que ele jogue emuladores com controles físicos. Curte velharias mas não deixa de jogar coisas novas. Nascido em 1980 e formado em matemática, joga desde que se lembra de existir, quando o pai comprou um CP-400, depois TK-90X, depois MSX e, por último, Amiga 500. Jogava em todos eles, além dos videogames que teve na época. É do tipo doente que dorme ouvindo música de jogo em rádios no tunein.