DuckTales Remastered Análise Kapoow

Introdução

No final dos anos 80 meu tempo livre se dividia entre desenhar compulsivamente, jogar videogame no meu Atari 2600, ir ao fliperama escondido da minha mãe para gastar fichas em Rygar e Time Pilot e colecionar quadrinhos da Disney, mais precisamente do Pato Donald e do Tio Patinhas. Enquanto algumas pessoas tinham o Renato Russo ou o Cazuza como ídolos, o meu era o Carl Barks.

Foi mais ou menos nessa época que um amigo meu, também colecionador de HQs da Disney, veio me falar que tinham lançado um desenho do Patinhas na TV! Foi assim que conheci DuckTales.

Como o NES demorou um pouco para desembarcar de vez no Brasil, só fui ter acesso ao jogo da Capcom lá pelos anos 90, mas a paixão pelo pato sovina de Barks ainda estava acesa. Não demorou muito para que os dois jogos da caíssem em minhas mãos e se tornassem alguns dos meus favoritos de todos os tempos.

Quando soube que seria feito um remake HD de Ducktales, imediatamente liguei meu NES, abri uma Stella Artois e  joguei tudo de novo. Impressionante como ainda lembrava de tudo, ou quase tudo, uma vez que me esqueci o quanto o jogo era brutal, sem continues, passwords ou qualquer artifício que pudesse ajudar a finalizá-lo. Morreu, já era! Mesmo assim, para minha surpresa, consegui terminá-lo de primeira!

Gráficos

Ducktales - Comparação dos gráficos

O DuckTales original é uma obra prima de seu tempo. Depois de meia dúzia de jogos meia boca (como Mickey Mousecapade), a Disney passou a trabalhar com a Capcom e o projeto do jogo caiu nas (habilidosas) mãos de Keiji Inafune, que usou toda sua experiência com Mega Man para fazer um jogo fantástico (dá pra achar vários elementos de MM em DT). Além disso, a trilha sonora é uma das mais legais dos videogames, assinada por Yoshihiro Sakaguchi, que também compôs diversos temas de Street Fighter e Mega Man. Tudo isso junto acabou criando um clássico eterno, que não envelheceu nem um pouco.

Confesso que fiquei um pouco apreensivo com o que iriam entregar aos jogadores de hoje em dia, numa época em que games são superproduções. Mas a Capcom acabou fazendo um bom trabalho,  mesclando personagens e inimigos em 2D de alta resolução (como em Street Fighter Turbo HD Remix), com animações lindas e cheias de vida porém utilizando os cenários em 3D, com qualidade de jogos Live Arcade. Geralmente esse tipo de combinação fica bem ruim, com os elementos 2D e 3D mostrando claramente que não deviam estar no mesmo jogo. Mas em DuckTales Remastered isso não aconteceu e o trabalho de arte do 3D casa muito bem com os personagens e você não nota nenhuma discrepância.

Som

Já na parte de som, o cuidado foi enorme. DuckTales de NES possui uma das trilhas sonoras mais legais dos videogames, assinada por Yoshihiro Sakaguchi, que também compôs diversos temas de Street Fighter e Mega Man. O remake respeita isso, mantendo praticamente todas as composições de Sakaguchi, remixadas mas sem perder a essência do clássico. É fácil, para quem tem mais de trinta, reconhecer as trilhas marcantes como a da fase da Lua, a preferida de 9 em cada 10 amantes de Ducktales. Além disso, tiveram o cuidado de acrescentar voz aos personagens, usando os dubladores originais da série de TV. Infelizmente, só existe a dublagem em inglês ( seria perfeito se tivéssemos as vozes brasileiras ) mas o jogo possui legendas em português muito bem adaptadas e respeitando os nomes dos personagens como conhecemos no Brasil.

Jogabilidade

A mecânica do jogo é praticamente a mesma do NES. A WayForward, desenvolvedora do jogo, optou por deixar a física o mais parecida possível com o jogo clássico, beneficiando o jogador com controles bastante responsivos e saltos precisos, algo bastante necessário num jogo que não é moleza.

O design das fases foi ligeiramente alterado, ele lembra bastante o game clássico mas elementos foram adicionados para aumentar a durabilidade do game (DuckTales de NES é um jogo pequeno para os padrões de hoje em dia). Em todas as fases, elementos precisam ser recolhidos e reagrupados antes de prosseguir. Isso até já existia no original, mas em menor quantidade. Além disso, uma interessante fase-tutorial na caixa forte do Tio Patinhas foi adicionada ao game com direito a um banho revigorante na piscina de moedas. Sonho de criança realizado!

O movimento de pogo

O movimento de pogo, indispensável no jogo

Uma das mudanças que percebi logo de cara foi que o clássico movimento de Pogo (baixo + B durante o salto), em que o Patinhas usa a bengala como pula-pula para matar os inimigos, foi simplificado para B durante o salto, mas isso pode ser alterado nas opções para deixá-lo como era antigamente. Pode parecer pouco mas, em algumas fases, o controle entre ativar e desativar o Pogo é fundamental para que você alcance certas áreas especiais e escape de inimigos e objetos e a versão simplificada do comando ajuda muito.

Confiante em minhas habilidades,  comecei jogando direto no Hard e passei 3 fases de primeira (Transilvânia, African Mines e The Himalaias), mas não tive tanta moleza não. Mesmo com todas as facilidades criadas, o jogo é bem hardcore.

Os bosses estão mais espertos e seus movimentos não repetem padrões simples como no NES. A Maga Patalogika possui diversos ataques diferentes. Outros como o Yeti, ficaram gigantes. Não vou falar muito mais sobre eles para não estragar a surpresa.

Comparação entre a batalha com o Yeti no NES e no remake

Comparação entre a batalha com o Yeti no NES e no remake

Conclusão

Ducktales Remastered pode ser considerado um jogo moderno, mas com alma oldschool. Pode ser frustrante para os jogadores de hoje em dia, acostumados com vidas infinitas e checkpoints a cada 5 metros, mas possui uma curva de aprendizado tranquila, capaz de despertar interesse em quem gosta de desafios.

Para os macacos velhos, como eu, é um revigorante oásis, num mundo onde os bons jogos se afastam cada vez mais do desafio em nome do enredo cinematográfico, com explosões,  realismo e garantia de que você vai ver os créditos no final.

Nota: 9/10

[ Uma conversão perfeita que inova sem desrespeitar o clássico. Mesmo com as tentativas da Capcom/WayForward de criar conteúdo extra, o remake perde pontos por ser muito curto para os padrões de hoje em dia. ]

Bonus Content

DuckTales - Edição especial para imprensa

Edição especial limitada que foi distribuída para a imprensa

Assim como fez com o Megaman 9 e 10, a Capcom lançou uma edição super especial de Ducktales Remastered que inclui, além do código DLC do jogo, uma lancheira espetacular e uma cópia dourada do cartucho do cartucho clássico que funciona de verdade! Como essa edição é limitadíssima e foi distribuída apenas para a imprensa especializada – infelizmente o Kapoow ainda não existia – esses cartuchos dourados vão acabar se tornando super raros no futuro, complicando ainda mais a vida dos colecionadores de NES, como eu!

 

DuckTales Remastered: Um remake com alma oldschool

SauloSan
Sobre o autor
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Designer Gráfico e ilustrador que, vez ou outra se aventura com programação de jogos. Curte games desde que teve força para apertar o botão de seu primeiro controle. Retrogamer convicto, cresceu enfurnado em fliperamas nos anos 80, dividindo sua atenção entre os grandes clássicos e a possibilidade de ir para casa puxado pela orelha. Hoje divide seu pouco tempo livre para jogos entre sua coleção de consoles antigos e as partidas online na Live e no Steam.