Análise: Prey

Em 2006, logo no início da vida do Xbox 360, tive a oportunidade de jogar um shooter exclusivo do console com um tema muito interessante: E se um índio fosse sequestrado por alienígenas e lá, usando seus recém-descobertos poderes espirituais, tivesse de salvar o planeta? O jogo em questão era o Prey, um shooter com uma história inventiva e com bons twists, e que embora ainda tivesse os vícios de todo FPS da primeira leva (principalmente as fases extremamente lineares e a mecânica de energia do jogador) era um shooter sólido, divertido e com alguns elementos extremamente inovadores – como a habilidade de inverter a gravidade de ambientes, por exemplo.

Ao terminar o jogo, uma mensagem na tela sugeria uma continuação. O sucesso de público e crítica obviamente ajudava. E a continuação chegou a ser anunciada. Excelente!

No entanto o jogo entrou no limbo do desenvolvimento. Notícias de problemas surgiam o tempo todo. Até que… O cancelamento foi anunciado. Mas em 2012 um trailer fantástico mostrava imagens de Prey 2. Um vídeo repleto de ação, extremamente bonito, com um herói novo e uma ambientação diferente: Você comandaria um caçador de recompensas numa terra dominada por aliens.

Animador – até ser cancelado novamente.

Finalmente, um reboot foi anunciado, sob responsabilidade da Arkane Studios (de Dishonored). E é este o jogo que tive a chance de jogar.

O que sobrou do jogo original?

Bom… Você controla um humano contra aliens, e sua arma inicial é um melee (uma chave inglesa). E… Mais nada, só isto. O jogo assumidamente não é uma continuação, remake, reboot ou reimaginação do original. Na verdade o jogo não bebe na fonte original nem mesmo nas armas ou brincadeiras com a física (portais, gravidade variável) – a grande inspiração, óbvia em cada centímetro  do novo Prey ,é a série Bioshock.

Você é Morgan Yu, um cientista convidado por seu irmão, Alex, para trabalhar na estação espacial Talos I. Ao chegar a seu destino, durante uma série de testes você observa um ataque por alienígenas, que dizimam os cientistas presentes. Até… Você acordar de novo em seu quarto, com o despertador tocando.

Hein?

Logo você descobre que nem tudo em Prey é o que parece. A história é contada em camadas. Quando você acha que entendeu alguma coisa… Uma mudança. Uma descoberta.  Uma surpresa. Um twist que te pega no contrapé, até a última cena do jogo. A história realmente é interessante e bastante complexa, e, como em Bioshock, é contada por fragmentos encontrados no mundo: Diários de voz, vídeos, e-mails, documentos. Um trabalho interessantíssimo de ambientação e construção de mundo, com múltiplos finais possíveis, como um RPG de mundo aberto. Entrar em detalhes aqui pode estragar algumas surpresas (que já começam a surgir com 4 horas de jogo, das estimadas 20 horas para terminar explorando bem a nave), então vou evitar discutir o roteiro. Mas acredite, ele vai dar um nó em você.

E o jogo?

Como já comentei, o jogo segue profundamente a filosofia e estética de Bioshock: Você se encontra em uma gigantesca estação espacial, aparentemente vazia, com mortos por todos os lados e uma ambientação levemente retrô-futurista. A área mais importante é um grande lobby, com diversas salas, andares e corredores que levam a áreas secundárias igualmente cheias de salas e corredores. Os mapas  secundários são grandes dungeons  multinível, construídos com muito cuidado. Portas de manutenção também interligam diversas áreas, fazendo com que sejam possíveis várias abordagens para cada situação, desde a clássica “abra a porta da frente e entre atirando” (e morra) até tentativas mais elegantes, como “se esgueire pela entrada de manutenção, passe por baixo do galpão e torça para que ninguém te veja”.

Como em Bioshock, o ambiente é escuro e cheio de perigos, tanto ambientais (fogo e eletricidade, por exemplo) quanto nos inimigos – robôs voadores, torretas de segurança, ou… diversos alienígenas que surgem do nada para causar um pequeno infarto no jogador.

Existem diversas classes de aliens. A mais comum, os Mimic, no entanto é a mais chata delas: Eles podem se disfarçar de qualquer objeto. Entrou numa sala e viu duas canecas idênticas em cima da mesa? Opa. Uma delas pode ser um alien. Chegue mais perto para ver, explore… E pronto, o bebedor atrás de você vira um alienígena e te ataca. Surpresa!

Infelizmente este é o maior problema que vi no jogo: Os combates, principalmente no começo da curva de evolução, são desbalanceados. Muito. São difíceis, a munição é escassa e os inimigos são incansáveis. Não adianta correr. Se você der o azar de entrar numa sala com três inimigos, se prepare – você vai morrer. Mesmo armado. Mesmo com medkits sobrando. Mesmo jogando granadas.  Como o guia oficial do jogo alerta, “O quicksave é seu amigo”: Salve muito, salve após limpar cada sala, salve antes de entrar em cada ambiente maior – o joo é cruel com o jogador.

E isto pode ser frustrante às vezes. O jogo é claramente desenhado para ser um survival horror, com munição escassa e incentivo à furtividade. Mas muitas vezes você precisa sair do ponto A e chegar no B, e para fazer isto é preciso atravessar uma sala, e nesta sala existem dois aliens te esperando. Não há o que fazer. Nem sempre há caminhos possíveis. Cheguei a passar 20 minutos tentando atravessar uma sala das formas mais variáveis possíveis. Morrendo em todas. Por fim consegui passar na mais pura sorte, com um cheirinho de energia. Deveria ser um momento de alegria, mas na verdade fica desconfortável. Desbalanceado.

Não que faltem opções de armas – elas são diversas, e variadas. Mas ainda assim não dá pra jogar como um FPS clássico, run´n´gun. Você vai morrer. Muito.

Ah! Esqueci de comentar:  O sistema de mira é muito ruim e desajeitado. E os aliens (especialmente os Mimic) são extremamente ágeis, escalam paredes e correm em seu redor. Se prepare para passar momentos “aonde está este filho da mãe”, girando a câmera em círculos. Este problema já é conhecido, esperamos que seja sanado com um patch.

Também existe a clássica árvore de evolução de personagens, com power-ups que seguem basicamente o roteiro de todos os jogos com mecânica semelhante. E mais pra frente durante o jogo você também passa a poder copiar poderes dos alienígenas, o que acrescenta uma camada divertida de jogabilidade – *você* passa a ser a caneca idêntica em cima da mesa, por exemplo.

Mas cuidado… Instale poderes alienígenas demais, e você pode passar a ser reconhecido como um alien hostil pelas defesas da estação espacial…

E a parte técnica?

Bom… O jogo não é lindo.  Não que seja feio, de forma alguma! Mas graficamente não se destaca, está na pilha dos “medianos”. É bonito, e só. A parte de áudio é bem mais interessante, realmente cria um clima de tensão que permeia todo o jogo. Diria que é o ponto forte do jogo, especialmente em sistemas 5.1. A música te deixa tenso como em um bom filme de terror. Os controles são um pouco contra-intuitivos, de novo fortemente baseados em Bioshock, com algumas escolhas que parecem datadas. Demora um pouco pra acostumar, mas depois fica tudo muito fácil.

O jogo tem alguns bugs. Alguns bem chatos – aconteceu de eu ficar preso no cenário e ter de recarregar save em mais de uma ocasião, por exemplo. E algumas animações e movimentos estão muito desajeitados e nem um pouco naturais. Mas nada que quebre o jogo.

É um jogo que, diz-se, pode ser terminado pela maior parte dos jogadores com entre 15 e 20 horas. Vale o esforço.

Mas e aí? Afinal, o que achou?

Prey é divertido. A história é complexa e te surpreende, deixando sempre curioso com o que vai acontecer. O jogo é difícil e o combate pode ser frustrante, mas não é um jogo para masoquistas. E embora não tenha sobrado praticamente nada do jogo original, o novo Prey, que é muito fortemente calcado em Bioshock e Dishonored, é competente o suficiente para agradar a maior parte dos jogadores. Não é melhor que Bioshock (o que é difícil mesmo!), mas é um jogo prazeroso de se jogar, com alguns excelentes momentos e vários bons momentos.

Pode jogar sem medo.

Digo, com medo. Jogue com medo.

Nota: 8

[Prey é um bom jogo. Não tem nada a ver com o jogo original, estando mais pra uma continuação espiritual de Bioshock. Apesar dos problemas de controle, curva de dificuldade desbalanceada e um ou outro bug chatinho, o jogo te pega pelo pescoço por sua história complexa e ambientação sensacional, e te leva por uma viagem bastante divertida e satisfatória. Jogue! E se você ainda não jogou, jogue o Prey original. E Bioshock!]

Análise: Prey

Marco Lazzeri
Sobre o autor
- Lazzeri é velho. Seu primeiro videogame foi um Atari 2600. Já jogou muito, já jogou de tudo. Já passou batido por jogos AAA, e já gastou dias seguidos em jogos terríveis em BASIC pra MSX. Hoje joga menos do que gostaria, porque esta é a parte chata de ser velho e pai de família. Mas a antiga chama está lá, pronta para reacender quando um jogo de primeira linha aparece.